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Vaginismo vs Dispareunia: Entender e Tratar as Diferenças


O que é Vaginismo e Dispareunia?


Vaginismo e Dispareunia são duas condições relacionadas à dor e desconforto durante a

relação sexual, mas com algumas características diferentes. Aqui explicamos-lhe as diferenças entre estas condições e a importância de as avaliar corretamente.


O vaginismo é uma condição em que ocorre uma contração involuntária dos músculos ao redor da entrada da vagina, tão intensa que constitui uma barreira à penetração vaginal. As causas do vaginismo podem ser tanto físicas quanto psicológicas, incluindo:


  • Medo da dor durante a penetração.

  • Histórico de abuso sexual ou trauma.

  • Condições médicas como infeções ou irritações vaginais recorrentes.

  • Problemas relacionais ou de falta de desejo.

  • Depressão ou ansiedade.

  • Crenças religiosas ou sociais.


Já a dispareunia trata-se de um sintoma de uma variedade de condições que se caracteriza pela dor genital persistente ou recorrente que ocorre durante ou após a relação sexual penetrativa. A dor pode ser sentida na superfície vulvar, na vagina ou no abdómen profundo, dependendo da causa subjacente. As causas da dispareunia podem ser variadas e incluem:


  • Infeções vaginais ou urinárias recorrentes.

  • Endometriose.

  • Cistos ovarianos.

  • Atrofia vaginal (especialmente comum após a menopausa).

  • Doenças dermatológicas como líquen escleroso.

  • Problemas estruturais como cicatrizes de cirurgias ou partos.


Ambas as condições podem ter um impacto significativo na qualidade de vida, no relacionamento sexual e na saúde mental, mas com diagnóstico e tratamento adequados, muitas mulheres conseguem encontrar alívio e melhorar sua saúde sexual.

 

A Importância da Diferenciação


A diferenciação entre vaginismo e dispareunia é essencial para um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz. Embora ambas as condições envolvam dor durante a relação sexual, elas têm causas e características distintas, exigindo abordagens terapêuticas específicas.


As principais diferenças residem em 3 fatores:


1. Causas e Natureza da Dor

Vaginismo: A dor resulta de contrações involuntárias dos músculos ao redor da entrada da vagina. Embora a mulher tenha desejo sexual, esta é uma reação automática e muitas vezes inconsciente ao medo ou ansiedade relacionados com a penetração peniana.

Dispareunia: A dor pode ser secundária a uma variedade de causas físicas, como infeções, condições dermatológicas, problemas estruturais ou doenças como a endometriose. A dor pode ser superficial (na entrada da vagina) ou profunda (dentro da pelve) e manifestando-se durante ou após a penetração.


2. Localização da Dor

Vaginismo: A dor é geralmente localizada na entrada da vagina e é causada pela contração dos músculos do pavimento pélvico, impedindo a penetração.

Dispareunia: A dor pode ocorrer em qualquer parte do trato genital, desde a superfície vulvar até o fundo da pélvis. Pode ser uma dor em queimadura, uma ardência ou uma sensação de pressão.


3. Aspetos Psicológicos e Emocionais

Vaginismo: Está frequentemente associado a fatores psicológicos como medo, ansiedade ou traumas passados. É fundamental que a abordagem terapêutica inclua terapia sexual ou psicológica.

Dispareunia: Embora possa ter componentes emocionais associados, muitas vezes tem uma causa física subjacente que precisa de ser tratada. Não invalida a necessidade de terapia sexual, mas por norma a componente emocional surge secundariamente à dor persistente e à limitação funcional.

Com um diagnóstico correto e tratamento apropriado, as mulheres podem alcançar uma redução significativa da dor, uma melhoria da função sexual e uma melhor qualidade de vida. A diferenciação adequada entre vaginismo e dispareunia é, portanto, crucial para alcançar esses resultados, fornecendo o tratamento correto, focado na causa do problema e melhorando a saúde e o bem-estar geral da mulher. Ao entender as causas e características específicas de cada condição, os profissionais de saúde podem oferecer intervenções mais precisas e eficazes, com os melhores resultados terapêuticos.

 

Vaginismo: Como se Avalia?


Principais Características

As principais características que levam o fisioterapeuta a suspeitar de vaginismo são:

  • Dificuldade ou impossibilidade de inserção vaginal durante a relação sexual, exames ginecológicos ou uso de tampões.

  • Dor intensa ou sensação de ardência quando a penetração é tentada.

  • Contração involuntária e persistente dos músculos do pavimento pélvico, normalmente descrita como sensação de que existe uma barreira que não permite a penetração.

 

Processo de Avaliação

A avaliação do vaginismo é multifacetada, envolvendo uma combinação de histórico médico, exame físico e, frequentemente, uma avaliação psicológica.

1. Histórico Médico e Sexual

Uma anamnese detalhada, que inclui perguntas sobre a história sexual da paciente, experiências de dor durante a penetração, uso de tampões, antecedentes de abuso sexual ou trauma, nível de ansiedade relacionado ao sexo e qualquer histórico de problemas ginecológicos. Podem também ser aplicados questionários, que são instrumentos padronizados que medem a gravidade dos sintomas e o impacto na qualidade de vida.

2. Exame Físico

O exame ginecológico é sempre conduzido de maneira muito cuidadosa e sensível para evitar aumentar a ansiedade ou a dor. Inclui a observação visual da área genital para identificar possíveis causas físicas de dor e a tentativa de um exame com toque leve e gradual, se assim consentido. A avaliação dos músculos do pavimento pélvico é importante para verificar a presença de tensão muscular, hipertonias, pontos dolorosos, avaliar a capacidade contrátil e de relaxamento e a consciencialização corporal.

3. Avaliação Psicológica

Uma avaliação psicológica pode ajudar a identificar fatores emocionais e psicológicos que contribuem para o vaginismo, como ansiedade, medo da dor ou traumas passados. A terapia cognitivo-comportamental pode ser recomendada para abordar os aspetos emocionais e psicológicos da condição.

 

Dispareunia: Conceito e Avaliação


Entendendo a Dispareunia

Dispareunia é um sintoma de dor sexual, caracterizado por dor genital persistente ou recorrente associada à relação sexual. Esta dor pode ocorrer antes, durante ou após a penetração vaginal e pode ser superficial (na entrada da vagina) ou profunda (dentro da pélvis).


As características principais da dispareunia incluem:

1. Localização da Dor: A dor pode ser sentida na vulva, na entrada vaginal, ou no fundo da pelve.

2. Tipo de Dor: Pode variar de uma sensação de queimadura, ardência ou picada, até uma dor profunda e difícil de localizar.

3. Intensidade e Duração: A dor pode variar em intensidade, desde leve até severa, e pode durar desde alguns minutos até horas após a relação sexual.

Métodos de Avaliação

A avaliação da dispareunia envolve uma abordagem abrangente, considerando tanto fatores físicos como psicológicos.

1. Histórico Médico Completo

Inclui perguntas sobre a natureza, localização, duração e intensidade da dor, histórico de infeções, cirurgias ginecológicas, partos e uso de contracetivos, assim como a pesquisa de outras condições médicas que possam contribuir para a dor, como doenças inflamatórias pélvicas, endometriose ou distúrbios hormonais.

2. Exame Físico

Este é um exame cuidadoso e o menos doloroso possível. Inclui inspeção visual dos genitais externos e internos, palpação da área pélvica para identificar pontos de dor e possíveis anomalias estruturais.

Pode também ser realizado o teste de Q-tip, onde é usado um cotonete para tocar suavemente a área ao redor da abertura vaginal para localizar áreas específicas de dor.

3. Exames Laboratoriais e de Imagem

Pode ser necessário o encaminhamento para ginecologia, na eventualidade de ser necessário descartar infeções vaginais ou urinárias, ou realizar ecografia pélvica, para visualizar órgãos internos e identificar possíveis causas de dor, como cistos ovarianos ou fibromas.

4. Avaliação Psicológica

Uma avaliação psicológica pode ser importante para identificar fatores emocionais ou psicológicos que possam contribuir para a dor, como ansiedade, depressão ou histórico de trauma sexual. A Terapia Sexual pode ser recomendada para tratar aspetos emocionais e melhorar a resposta ao tratamento.

 

Diagnóstico Diferencial


Em consulta, é crucial distinguir o vaginismo da dispareunia ou de outras condições que também causam dor durante a relação sexual. O diagnóstico diferencial inclui:

1. Vaginismo: Contração involuntária dos músculos do pavimento pélvico que impede a penetração vaginal.

2. Dispareunia: sintoma de dor durante a relação sexual, que pode ter causas físicas distintas, como infeções, atrofia vaginal, endometriose, cistos ovarianos ou cicatrizes pós-cirúrgicas.

3. Vulvodínia: Dor crónica na área vulvar sem causa identificável, que pode ou não ser constante e ocorrer durante a relação sexual ou em outros contextos. A vulvodínia pode co-ocorrer com o vaginismo, mas é uma condição distinta.

4. Problemas Estruturais: Anomalias congénitas ou adquiridas do trato genital que podem causar dor durante a penetração. Exames de imagem e um exame físico detalhado podem ajudar a identificar estas condições.

5. Infeções e inflamações: Infeções vaginais, cistite intersticial, e outras condições inflamatórias podem causar dor durante a penetração e precisam ser descartadas através de exames laboratoriais e avaliação clínica.

 

Tratamentos para Vaginismo e Dispareunia


Tanto o vaginismo como a dispareunia podem ser tratados com uma variedade de abordagens terapêuticas que visam reduzir a dor, resolver os problemas subjacentes e melhorar a qualidade de vida sexual da pessoa afetada. Aqui estão algumas das principais abordagens terapêuticas utilizadas:

Abordagens Terapêuticas

1. Fisioterapia pélvica:

Envolvem exercícios para fortalecer e relaxar os músculos do pavimento pélvico, o que pode ajudar a reduzir a dor e melhorar a função sexual. Técnicas de biofeedback, eletroestimulação ou outras abordagens em eletroterapia podem ser utilizadas para ajudar a pessoa a ganhar consciência e controlo sobre seus músculos pélvicos.

2. Psicoterapia:

Ajuda a identificar e modificar padrões de pensamento negativos e comportamentos disfuncionais relacionados ao sexo. Pode incluir técnicas de relaxamento, dessensibilização gradual e reestruturação cognitiva para reduzir a ansiedade e o medo associados ao sexo.

3. Terapia Sexual:

Auxilia na comunicação do casal, na resolução de problemas de relacionamento e no desenvolvimento de habilidades sexuais. Pode incluir exercícios de intimidade, técnicas de mindfulness durante o sexo e práticas de conexão emocional.

4. Tratamento Médico:

Dependendo da causa subjacente da dor, esta pode incluir medicamentos para tratar infeções, inflamações ou condições médicas como endometriose. Hormonoterapia pode ser recomendada para mulheres com atrofia vaginal relacionada com a menopausa.

 

Experiências Clínicas e Resultados


Muitas pessoas relatam uma redução significativa na dor e no desconforto sexual após o tratamento. Em alguns casos, pode ser necessário um tratamento mais longo e intensivo, especialmente se houver fatores psicológicos ou emocionais significativos envolvidos. A abordagem multidisciplinar, que combina diferentes modalidades terapêuticas, geralmente produz os melhores resultados. O suporte contínuo, tanto dos profissionais de saúde quanto do parceiro sexual, é fundamental para ajudar a pessoa a enfrentar os desafios e superar as dificuldades ao longo do processo de tratamento.

Cada pessoa é única, e uma abordagem multidisciplinar permite adaptar o tratamento às necessidades específicas de cada indivíduo, levando em consideração seus sintomas, histórico médico e fatores psicossociais.


Quem Trata e Onde Encontrar Ajuda: Profissionais Especializados


1. Fisioterapeuta pélvico: Um especialista em fisioterapia pélvica pode realizar avaliações físicas e prescrever exercícios terapêuticos para melhorar a competência dos músculos pélvicos, aliviando a dor e melhorando a função sexual.

2. Ginecologista: Especialistas em saúde reprodutiva podem diagnosticar e tratar condições médicas que causam dor durante o sexo, como infeções, endometriose ou atrofia vaginal. Se sentir ardor constante, comichões, notar a zona vulvar com manchas ou alterações de coloração ou formato, é a este profissional que deve recorrer.

3. Psicólogo Clínico ou Terapeuta Sexual: Profissionais treinados em terapia cognitivo-comportamental, terapia sexual e outras abordagens psicoterapêuticas que podem ajudar a pessoa a lidar com fatores emocionais e psicológicos relacionados ao vaginismo e à dispareunia.

 

Conclusão


Esperança e Perspetivas Futuras

Apesar dos desafios enfrentados por quem vive com vaginismo e dispareunia, há motivos para otimismo e esperança. Avanços contínuos na pesquisa científica estão a conduzir a uma melhor compreensão destas condições e a desenvolvimentos inovadores na abordagem a estes problemas.

A consciencialização pública sobre o vaginismo e a dispareunia está a crescer, o que ajuda a reduzir o estigma em torno dessas condições e a promover uma discussão aberta sobre saúde sexual, que é tão importante para que cada vez mais pessoas saibam que existe ajuda e a possam encontrar.


Consciencialização e Acesso ao Tratamento

O vaginismo e a dispareunia são condições que podem causar sofrimento físico e emocional significativo, afetando a qualidade de vida e a saúde sexual das pessoas afetadas. No entanto, com diagnóstico precoce, tratamento e apoio adequados, é possível encontrar alívio e melhorar a saúde sexual e o bem-estar geral.

As disfunções sexuais são problemas reais, não devem ser normalizados nem silenciados e ninguém deve ser condenado a lidar com eles sozinho. É muito importante que haja uma consciencialização para o problema e que se esclareça que existem soluções. Encontrar ajuda especializada e seguir um plano de tratamento abrangente pode ajudar a pessoa a lidar com o vaginismo e com a dispareunia de forma eficaz, melhorando sua saúde sexual e bem-estar emocional.

 Estamos aqui para o ajudar nesse processo e esclarecer qualquer dúvida adicional.

 

Artigo desenvolvido por:

Rita Fernandes

Fisioterapeuta (OF) 3898) especialista em Fisioterapia Uroginecológica (pélvica) e responsável pela Consulta de Saúde da Mulher na Fisiointegral

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