A Coluna da Grávida

São conhecidas as dores de costas (por vezes desesperantes) de uma grávida.

Mas porque acontecem? E terá a grávida de aguentar essas dores, ou haverá algo a fazer? E depois da gravidez?

Estas são algumas questões que vamos dissecar.


A gravidez é uma fase extremamente desafiante para a mulher.

Ao longo de nove meses, o corpo sofre alterações significativas e está em constante mudança, dia após dia. São estas mudanças, hormonais e biomecânicas, que vão facilitar a acomodação do bebé dentro do útero, ao mesmo tempo que tentam preservar a funcionalidade do corpo da mãe e o preparam para o momento do parto. [1, 2, 3]


Por um lado, verifica-se o aumento dos níveis de relaxina e estrogénio no corpo, o que é responsável pelo aumento da laxidez ligamentar e por algumas alterações na função muscular. Esta laxidez vai permitir que as articulações da coluna e da pélvis se adaptem melhor ao crescimento do feto e são essenciais no momento do parto. Contudo, podem trazer dificuldades ao longo da gravidez. [1, 2]


Por outro lado, com o aumento do peso e volume abdominal, o centro de gravidade da mulher avança. Estas alterações influenciam a curvatura da coluna, acentuando os ângulos de lordose (curva convexa) cervical e lombar e o ângulo de cifose torácica (curva côncava). [1, 2, 3]


Além da acentuação das curvaturas e da consequente diminuição da mobilidade do tronco, há outras alterações associadas à gravidez. As alterações na estabilidade estática e dinâmica, a modificação da velocidade da marcha e da largura da passada, a posteriorização dos ombros, o tilt posterior do sacro, a hiperextensão dos joelhos e a diminuição do arco plantar são outras características comuns na grávida. [1, 2, 3]


A par destas alterações, até ao final da gestação, o peso da mulher aumenta entre 15 a 25%, o que significa uma carga adicional para os tendões, ligamentos e articulações [3].


Também o controlo postural e o equilíbrio se alteram com a gravidez: estima-se que cerca de 27% das mulheres grávidas sofrem pelo menos um episódio de queda, o que aumenta a predisposição a lesão [1, 2].


Toda esta mudança no corpo da mulher pode influenciar o surgimento ou agravamento da dor lombar e/ou pélvica [2]. Estima-se que as dores nas costas ocorrem aproximadamente em 80% das grávidas e são maioritariamente localizadas na região lombar e sacroilíaca (56% das grávidas), 49% das mulheres queixam-se de dor na região pélvica prolongada por mais de 3 meses e 10% das mulheres queixam-se de episódios de dor aguda na região pélvica a determinada altura durante a gravidez. [1, 2, 3]


Contudo, convém salientar que, apesar de o impacto funcional destas alterações ser óbvio, estas são fisiológicas e expectáveis. Assim, não podemos responsabilizá-las diretamente pelas dores frequentemente sentidas pela grávida. Podemos sim afirmar que, quando a dor existe, a acentuação das curvaturas e o aumento do peso e da carga nas articulações podem complicá-la. [1, 2]


A origem de uma dor é sempre multifatorial e, nestes casos especificamente, pode estar relacionada com inúmeros fatores: número de partos, dor lombar pré-existente, índice de massa corporal, aumento de peso, disfunção muscular, alterações vasculares ou circulatórias ou fatores psicossociais. [3, 4]


Com o crescimento progressivo do feto, é de esperar que as alterações corporais se evidenciem maioritariamente no último trimestre de gestação [2].


Contudo, tal não significa que a mulher não se deva preparar previamente para elas. A gravidez pode e deve ser uma experiência tranquila e confortável. Marque já a sua consulta.


Artigo desenvolvido por Rita Fernandes - Fisioterapeuta Especialista em Saúde da Mulher.

Conhecer mais sobre a Rita e a Fisiointegral AQUI


Leitura recomendada:

[1] R. Conder, R. Zamani, M. Akrami, “The Biomechanics of Pregnancy: A Systematic Review”, Journal of Functional Morphology and Kinesiology, 2019

[2] H. Yoo, D. Shin, C. Song, “Changes in the spinal curvature, degree of pain, balance ability, and gait ability according to pregnancy period in pregnant and nonpregnant women”, The Journal of Physical Therapy Science, 2015

[3] G. Schröder, G. Kundt, M. Otte, D. Wendig, H. C. Schober, “Impact of pregnancy on back pain and body posture in women”, The Journal of Physical Therapy Science, 2016

[4] J. Sabino, J. N. Grauer, “Pregnancy and low back pain”, Current Reviews in Musculoskeletal Medicine, 2008

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